RESTAURAÇÕES EM AMÁLGAMA ODONTOLÓGICO – Posso ainda realizar? Devo remover aquelas que meus pacientes já possuem?
Como responder sobre seu uso com base na melhor evidência científica.
Informativo n.4 (04/12/2023) CLIQUE AQUI
Câmara Técnica de Dentística do CRO-GO
Prof. Dr. Lawrence Gonzaga Lopes- Presidente
Profa. Dra. Andreia Assis Carvalho- Secretária
Profa. Dra. Ana Paula Rodrigues Magalhães Chaves- Membro
A tomada de decisão e a prática clínica baseadas na melhor evidência científica devem ser premissas para a realização de uma Odontologia de excelência. Evidência científica é resultante do produto de pesquisas bem delineadas e controladas, desenvolvidas para responder a uma pergunta específica. Estudo isolado não constitui uma evidência per si, mas, se for qualificado, pode contribuir para que determinada intervenção ou técnica, a partir do desenvolvimento de mais estudos, possa ser escolhida pelos profissionais. Quando uma evidência é produzida, é provável que ela continue sendo questionada e, estudos posteriores, especialmente os de baixo risco de viés, poderão confirmá-la ou refutá-la. Uma vez consolidada, em especial com a publicação de revisões sistemáticas/meta-análise, a evidência deve servir de base para a prática clínica diária (Informativos ns.1, 2 e 3; Câmara Técnica de Dentística/CRO/GO).
Com o aprimoramento e o maior uso dos materiais estéticos em restaurações, bem como questões inerentes à presença de mercúrio no amálgama, em apelo global/ambiental, ainda restam dúvidas sobre os materiais disponíveis para a restauração de dentes posteriores. Em especial, pelo avanço da desinformação que comumente adota técnicas de comunicação com dizeres rebuscados, sem base científica, e extraídos meramente de resultados de estudos ruins. Portanto, o objetivo desse quarto informativo é fornecer ao especialista em Dentística e ao Clínico Geral uma síntese do que existe na ciência odontológica sobre questões frequentes neste assunto, norteada pela melhor evidência científica atual.
1. Maltz M, Jardim JJ, Alves LS. Decisão de tratamento restaurador baseado em evidências científicas. In: Busato ALS, Maltz M. Cariologia: aspectos de dentística restauradora. São Paulo: Artes Médicas, 2014, p. 11-21.
2. Informativo n.1. Clareamento Dentário: Como atuar na prática e orientar seus pacientes com base na melhor evidência científica. https://www.crogo.org.br/site/index.php/destaques/1465-clareamento-dentario-como-atuar-na-pratica-e-orientar-seus-pacientes-com-base-na-melhor-evidencia-cientifica .
3. Informativo n. 2. Proteção do complexo dentino pulpar: Como atuar na prática e orientar seus pacientes com base na melhor evidência científica. https://www.crogo.org.br/site/index.php/destaques/1533-protecao-do-complexo-dentinopulpar-como-atuar-na-pratica-com-base-na-melhor-evidencia-cientifica .
4. Informativo n. 3. Pinos Intrarradiculares – Qual o melhor? Como escolher e quando indicar seu uso com base na melhor evidência científica . https://www.crogo.org.br/site/images/Informativo_n._3_-Pinos_Intrarradiculares_-_26.06.2023.pdf
1. A presença de restaurações de amálgama representa um risco à saúde do paciente?
Com mais de 150 anos de sucesso clínico em Odontologia, as restaurações de amálgama são frequentemente questionadas quanto à possibilidade de representarem um risco à saúde dos pacientes. Isso se deve à presença do mercúrio em sua composição, substância que sabidamente pode ser tóxica para a saúde humana e para o meio ambiente.
Em 2017, o Programa para o Meio Ambiente da Organização das Nações Unidas (ONU) reuniu a Convenção de Minamata sobre Mercúrio, onde diversos países do mundo se comprometeram a diminuir gradualmente o uso do mercúrio, incluindo nessa lista, o amálgama dentário.
Especificamente na Odontologia, o mercúrio do amálgama pode penetrar no corpo humano principalmente via formação de vapores que podem ser inalados e absorvidos pelos pulmões, com baixíssima absorção via pele e sistema gastrointestinal. Portanto, as maiores possibilidades de contaminação se encontram nos momentos de fazer ou remover uma restauração de amálgama.
Diversos estudos já foram realizados tentando comprovar possíveis malefícios à saúde sistêmica, ora causados por restaurações de amálgama, o que permitiu a realização de duas revisões sistemáticas recentes (Worthington et al., 2021 e Gallusi et al., 2021). Worthington e colaboradores revisaram 8 estudos clínicos randomizados, os quais foram considerados de baixa qualidade de evidência, devido à alta possibilidade de viés. Já Gallusi e colaboradores, consideraram 9 estudos, alguns em comum à primeira revisão citada, mas já consideraram que 8 deles eram de baixo risco de viés.
Os autores encontraram estudos que avaliaram a relação da restauração de amálgama com as funções renal, neuropsicológica e psicossocial, com o desenvolvimento físico, com a resposta imunológica e fatores neurocomportamentais, bem como com o desenvolvimento de resistência bacteriana. Para a maioria desses fatores, não foi observada diferença entre os pacientes que tinham restaurações de amálgama e os que possuíam tratamentos restauradores em outros materiais. Alguns estudos mostraram aumento da concentração de mercúrio na urina de crianças nos primeiros 5-6 anos, após a realização da restauração, com diminuição para os níveis basais com 7 anos, mostrando que a liberação de mercúrio do amálgama diminui com o tempo. E o mais importante, os níveis de mercúrio encontrados nesses estudos estavam abaixo do que é considerado tóxico, não sendo encontrados danos clinicamente relevantes.
As evidências atuais são insuficientes para excluir ou demonstrar um maior risco de doenças sistêmicas ou comprometimento sistêmico quando do uso de restaurações de amálgama, não sendo possível concluir, portanto, que esse material representa um risco à saúde. A substituição de restaurações de amálgama com base apenas nesses argumentos (toxicidade) não encontra respaldo na melhor evidência disponível atualmente, não sendo, então, justificada.
Restaurações de amálgama NÃO representam risco à saúde do paciente
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1. Worthington HV, Khangura S, Seal K, Mierzwinski-Urban M, Veitz-Keenan A, Sahrmann P, Schmidlin PR, Davis D, Iheozor-Ejiofor Z, Rasines Alcaraz MG. Direct composite resin fillings versus amalgam fillings for permanent posterior teeth. Cochrane Database Syst Rev. 2021 Aug 13;8(8):CD005620. doi: 10.1002/14651858.CD005620.pub3.
2. Gallusi G, Libonati A, Piro M, Di Taranto V, Montemurro E, Campanella V. Is Dental Amalgam a Higher Risk Factor rather than Resin-Based Restorations for Systemic Conditions? A Systematic Review. Materials (Basel). 2021 Apr 15;14(8):1980. doi: 10.3390/ma14081980.
2. Qual material restaurador apresenta maior longevidade clínica: amálgama ou resina composta? Qual material leva a mais fraturas?
Ao considerar a longevidade clínica das restaurações, em revisão sistemática de Pilcher e colaboradores (2023), avaliando estudos clínicos que compararam o efeito do amálgama versus resina composta híbrida em restaurações Classes I e II combinadas, sugeriu-se que as restaurações de amálgama podem diminuir o risco absoluto de alterações na forma anatômica e adaptação marginal, de dor e desconforto pós-operatório, falha na restauração, fratura da restauração e cárie secundária em comparação com restaurações de resina composta híbrida (Pilcher et al., 2023).
Esses dados se assemelham aos encontrados nas revisões sistemáticas de Worthington et al. (2021) e Splieth et al. (2020). No primeiro trabalho, sugeriram que as restaurações de resina composta poderiam ter um risco significativamente maior de falha do que as restaurações de amálgama, embora tenham classificado como baixa qualidade de evidência. Na segunda revisão sistemática, identificou-se em um ensaio clínico randomizado que as restaurações em resinas compostas de Classe II poderiam ter um risco maior de falha em comparação com restaurações de amálgama.
Entretanto, os autores ressaltaram que os materiais de resina composta passaram por melhorias importantes após a seleção dos ensaios clínicos para análise e, dessa forma, alguns dos materiais utilizados nos estudos incluídos na revisão podem não estar mais em uso ou podem ter sido substituídos por produtos com melhores propriedades mecânicas e melhor resistência ao desgaste e à fratura. Dessa forma, os resultados da revisão podem não ser um reflexo verdadeiro da qualidade das restaurações atualmente em uso (Worthington et al., 2021).
Em se tratando de longevidade, um dos critérios avaliados é a fratura da restauração. A evidência sugere que pode não haver diferença nas taxas de fratura entre restaurações de amálgama e resinas compostas. Dos 8 ensaios clínicos randomizados incluídos na revisão sistemática de Worthington et al. (2021), somente 2 ensaios clínicos randomizados relataram dados de fraturas da restauração. Concluíram que não houve evidência de diferença no risco de fratura entre os dois materiais e que esse não é um motivo comum para o fracasso. Em um desses ensaios clínicos, houve relato das taxas de falha separadamente em molares e pré-molares, mas os resultados não foram suficientes para determinar se havia uma associação entre a localização das restaurações em dentes diferentes e a taxa de falha (Worthington et al., 2021). Contudo, Pilcher e colaboradores (2023) relataram que, embora a evidência seja muito incerta, o amálgama pode aumentar o risco absoluto de fratura coronária em comparação com resina híbrida (Pilcher et al., 2023).
Ainda sobre o tema de longevidade das restaurações, o reparo da restauração é um procedimento que está incluído no princípio de intervenção mínima para melhoria da longevidade dentária. Mendes e colaboradores (2022) compararam o risco de falha ao reparar ou substituir restaurações diretas defeituosas de resina composta e amálgama, realizadas em dentes permanentes. Com base nos dados extraídos, embora com baixa qualidade de evidência, a meta-análise encontrou que o reparo de restaurações diretas não apresentou diferença significativa no risco de falha quando comparado às substituições em dentes permanentes. Portanto, há ainda necessidade de ensaios clínicos relevantes, levando em consideração o tempo clínico, custo-benefício, satisfação e preferência dos pacientes (Mendes et al., 2022).
Restaurações de amálgama ainda apresentam maior longevidade do que restaurações em resina composta.
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1. Mendes LT, Pedrotti D, Casagrande L, Lenzi TL. Risk of failure of repaired versus replaced defective direct restorations in permanent teeth: a systematic review and meta-analysis. Clin Oral Investig. 2022;26(7):4917-4927. doi:10.1007/s00784-022-04459-0
2. Pilcher L, Pahlke S, Urquhart O, et al. Direct materials for restoring caries lesions: Systematic review and meta-analysis-a report of the American Dental Association Council on Scientific Affairs [published correction appears in J Am Dent Assoc. 2023 Apr;154(4):A9]. J Am Dent Assoc. 2023;154(2):e1-e98. doi:10.1016/j.adaj.2022.09.012
3. Splieth CH, Kanzow P, Wiegand A, Schmoeckel J, Jablonski-Momeni A. How to intervene in the caries process: proximal caries in adolescents and adults-a systematic review and meta-analysis. Clin Oral Investig. 2020;24(5):1623-1636. doi:10.1007/s00784-020-03201-y
4. Worthington HV, Khangura S, Seal K, et al. Direct composite resin fillings versus amalgam fillings for permanent posterior teeth. Cochrane Database Syst Rev. 2021;8(8):CD005620. Published 2021 Aug 13. doi:10.1002/14651858.CD005620.pub3
3. Amálgama X Resina Composta – Qual tem maior chance do aparecimento de lesão de cárie secundária?
Como descrito anteriormente, a restauração de dentes posteriores por vezes requer decisões inerentes ao tipo de material e técnica. O amálgama considerado um material tradicional, tem efetividade comprovada e baixo custo, porém com tonalidade distinta à dos dentes. Já a resina composta é um material estético, alternativo ao amálgama, que vem sofrendo uma melhora significativa em suas propriedades ao longo dos anos, com vistas a melhorar sua efetividade quando da restauração de dentes posteriores.
Em uma recente revisão sistemática com metanálise, publicada por Worthington e colaboradores (2021), foram buscadas evidências que respondessem sobre as diferenças no uso de amálgama e resina em dentes posteriores, dentre elas o risco do surgimento de lesões de cárie secundária. Com base em dados extraídos de ensaios clínicos, com no mínimo três anos de acompanhamento, os autores concluíram que restaurações de resina composta têm significativamente maior risco de lesões de cárie secundária do que restaurações de amálgama. Os autores classificaram a cárie secundária em restaurações de resina composta, como o desfecho clínico mais comum que levou a falha das mesmas.
Restaurações de amálgama apresentam menor risco de surgimento de lesão de cárie secundária do que restaurações em resina composta.
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1. Worthington HV, Khangura S, Seal K, Mierzwinski-Urban M, Veitz-Keenan A, Sahrmann P, Schmidlin PR, Davis D, Iheozor-Ejiofor Z, Rasines Alcaraz MG. Direct composite resin fillings versus amalgam fillings for permanent posterior teeth. Cochrane Database Syst Rev. 2021 Aug 13;8(8):CD005620. doi: 10.1002/14651858.CD005620.pub3.